O Formigueiro
Já havia algum tempo que eu não visitava meu avô no asilo, e a carta que recebi cobrando-me satisfações apenas serviu-me como a desculpa ideal para visitar o velho. Entusiasmado com a idéia de vê-lo novamente, não tardei em sair de casa, e, em pouco tempo, já me encontrava nos muros externos do asilo.
Este, por sua vez, era uma das construções mais antigas da cidade. Os muros eram feitos de pequenos tijolinhos vermelhos, e uma densa camada de poeira e poluição os deixava escurecidos, como se houvessem sido queimados. Cravado entre os muros, havia um pesado portão de barras de ferro, negro por inteiro, com cerca de quatro metros de comprimento e três de altura. O metal retorcido dos portões parecia querer manter algo lá dentro, ou ainda, para fora.
Ao passar pelo portão, vi o espectro do asilo formar-se, e uma leve névoa branca deixava toda a silhueta da construção com um aspecto turvo e misterioso. Conforme eu me aproximava, os arbustos dos jardins pareciam brotar em minha frente, e por vezes tropecei nos mesmos, espalhando folhas escuras e ásperas pelo caminho.
Depois de minha trôpega subida, dei com as paredes do asilo, grandes colossos amarelos com tristes janelas ovaladas, e, através das janelas, eu podia-se ver apenas pesadas cortinas beges, inertes, como se paradas no tempo. As paredes erguiam-se até o segundo andar, e depois começava um extenso telhado de várias águas, com ângulos impossíveis de se descrever e inclinações súbitas e fatais.
A pesada porta de madeira abriu-se quando a empurrei, e revelou-me o que parecia ser um salão de jogos. Por dentro, o asilo mantinha seu mesmo aspecto de abandono, e as paredes amarelas pareciam ainda mais sujas que as do lado de fora. Duas senhoras jogavam gamão sobre uma mesinha de metal, e um senhor assistia alguma coisa na TV. O ambiente era extremamente mal-iluminado, e me vi desejando uma lanterna, isqueiro, ou mesmo arrancar as cortinas das janelas.
- Posso ajudar?
A fala da enfermeira tirou-me de minhas suposições e desejos, e me colocou de volta na realidade. Virei-me, surpreso. Ela vestia um uniforme branco, e os cabelos loiros e lisos escorriam-lhe por sobre os ombros. O rosto exibia, além da jovialidade e da beleza, um cansaço crônico, que estendia-se pelo uniforme amassado e os braços cruzados.
- Eu estou procurando meu avô, o senhor Adam Lefay.
- Ah, sim... Queira me acompanhar até o quarto dele, por favor. – a moça tomou rumo pelos corredores labirínticos do asilo, enquanto eu a seguia observando cada parede da velha construção – Posso fazer algumas perguntas?
- Certamente.
- Há quanto tempo você não o visita?
- Há uns bons dois anos – senti-me na obrigação de explicar – Sou biólogo, e, como participo de pesquisas, passo grande parte de meu tempo viajando. Isso impede-me mesmo de ver meus vizinhos regularmente.
- E o quanto sabe sobre sua saúde?
- Sei que está doente, apenas, mas não sei os detalhes.
- Ele tem pouco tempo de vida, talvez alguns dias. Por isso, a carta foi-lhe enviada com urgência.
- Compreendo...
Enquanto andávamos, vi uma extensa fileira de formigas, os pequenos insetos arrastando-se em direção a um buraco na parede. Por algum motivo que me foge ao conhecimento, tenho um nojo e medo irracional de formigas, desses pequenos pontos negros que arrastam-se pelo chão em súplica. Meu olhar tornou-se fixo ao pequeno buraco na parede, e apenas tornei a andar quando a última formiga desapareceu pela entrada.
Em pouco tempo, chegamos ao quarto de meu avô, e a enfermeira deixou-me as sós com o velho. O quarto era tão mal-iluminado quanto o resto do asilo, e havia retratos ovalados de minha avó e minha mãe na parede. O quarto cheivara mal, e logo identifiquei o odor como ácido fórmico. Sentei-me em uma velha poltrona ao lado da cama, e descansei a mão sobre o ombro de meu avô. Senti a fragilidade dos ombros do velho, outrora fortes o suficiente para me carregar sobre eles. Comovi-me um pouco, e isso afastou minha atenção do odor horrível do local por um curto tempo.
- Friederich... – a voz rouca e cansada de meu avô chegou aos meus ouvidos em um misto de surpresa e melancolia – Como vão as coisas... Sua mãe, seu irmão, seu pai?
- Eles vão bem, sim. Mamãe vem visitar-me amanhã, posso trazê-la aqui. – uma formiga saiu de trás da cabeceira da cama, e subiu por ela até o travesseiro. Meu avô espantou com os dedos – Se você quiser.
O velho começou a responder, mas eu apenas me atentava às formigas saindo da cabeceira da cama. Primeiramente, eram poucas e dispersas, e seguiam rumos distintos, mas em pouco tempo, começaram a sair aos montes, unidas, uma massa escura e uniforme, arrastando-se pelo quarto.
Eu mal conseguia manter-me sentado à poltrona, agarrando-me com força ao braço da mesma. Os pequenos artrópodes asquerosos rodeavam os pés da cama e começavam a enveredar-se pelas cobertas, subindo pelo colchão e pela cabeceira. Meu avô, no entanto, parecia não perceber, e continuava falando.
O terror daquelas malditas formigas havia me lançado em direção a parede oposta, e as criaturinhas asquerosas já andavam sobre os cobertores e travesseiros. Para meu maior espanto, meu avô continuava falando, como se não as pudesse ver. E então, vi a estreita janela ovalada, aberta, o vento movendo as cortinas.
De um pulo, tomado de medo e fúria, puxei o cobertor e o travesseiro e os joguei pela janela. Meu avô grunhiu em desacordo, enquanto as formigas eram arremessadas pela janela. Exaurido, olhei para ele, deitado.
E foi então que percebi. As formigas não vinham de trás da cama, ou de dentro dela. Espalhadas pelo corpo de meu avô, haviam pequenos inchaços e feridas, os quais exalavam o maldito cheiro de podridão e ácido fórmico que agora impregnavam o quarto. E, saindo das feridas, se movendo por baixo e por cima de sua pele, estavam as malditas formigas, negras, pequenas e de corpos inchados, refestelando-se em sua carne. Dei um grito aterrorizado, saindo em disparada para fora do asilo, com minha cabeça pesada de medo e o sangue congelando dentro de meu corpo sem cor.
Não me lembro de ter passado pela enfermeira, pelos corredores, pelos jardins enevoados ou pelo portão de ferro retorcido. Não me lembro também de ter entrado no carro ou do caminho de volta. Mas lembro-me da cena horrível que presenciei, e das formigas sendo cuspidas pelo velho enquanto vociferava que eu voltasse, e das imensas saúvas que lhe devoravam os olhos. Essas cenas ficarão para sempre em minha mente, e eu nunca mais poderei descansar em paz, sabendo que as malditas formigas chamam por mim.
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domingo, 9 de outubro de 2011
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