O Silêncio dos Metrôs
Texto feito como continuação de “O Modelo de Pickman”, um aclamado conto de Howard Philips Lovecraft (do qual sou fã).
Vamos pelo metrô, dizia o velho rabugento, de feições esquálidas e com uma longa barba grisalha, os olhos cinzentos e sem vida, enquanto descia pelas escadas da Estação Northern Lights. Ele dizia que estava apenas me levando para ver os abrigos dos vários sem teto que habitavam a antiga estação abandonada, um pedido que lhe fiz devido à um trabalho para minha graduação em Antropologia. Porém, nada naquele mundo me levaria até os metrôs de Nova York novamente, ou a qualquer outro metrô do mundo. Desde que eu havia tomado conhecimento da estranha herança de meu avô Thurber, e a avaliado, eu nunca mais iria me arriscar em túneis daquele tipo.
A herança de meu velho avô era composta em grande parte de uma quantia significativa de dinheiro, casas, obras de arte, e livros sobre o oculto, o mítico, e o fantástico. Como estudante de Antropologia, os livros me fascinaram, e muitos citavam cultos ancestrais a criaturas inomináveis, mais velhas que o universo. Infelizmente, estes livros não eram detalhados, e muitas vezes me vi forçado a deixar de estudá-los pois todo o conhecimento necessário para melhor compreende-los havia sido perdido junto com os últimos seguidores destes cultos. Reconhecendo ali um tesouro de grandes proporções para a história da humanidade e uma imensa complementação para os meus estudos, era apenas natural que eu desejasse seguir a trilha deixada por meu tio em seu diário.
O velho diário exprimia sua imensa admiração por um artista de nome Richard Upton Pickman, o qual, segundo ele, retratava com maestria o medo mais primal e diabólico que a mente humana poderia conceber, “obras tão reais que mais parecem fotografias de verdadeiros monstros”. Levado pela minha imensa curiosidade e sede de conhecimento, li o diário inteiro em questão de dias, e o modo como os relatos terminavam intrigavam-me. De início, meu avô falava imensamente bem do autor, mas, ao final do diário, ele já dava sinais da loucura que o levou à morte, dizendo que a obra do artista que tanto o fascinava era simplesmente diabólica, e que não merecia ser vista por mais ninguém, e que Pickman era um depravado cujas condições mentais beiravam o insano. Junto aos relatos, próximo do final do diário, antes das críticas coléricas às obras de Richard, havia uma explicação de como chegar até o seu antigo ateliê, em uma casa isolada e fora da cidade.
Não perdendo tempo algum, tratei de viajar até a cidade citada no diário, e o caminho por entre árvores e uma trilha de grama alta, depois das linhas de trem e metrô, dava em uma cabana abandonada, com tábuas pregadas à porta e janelas, com um clima sinistro ao seu redor. A velha construção de janelas tristes, com um telhado absurdamente inclinado, me inspirou um terror irracional, e de repente, eu estava com um medo quase ancestral do que aquele lugar poderia guardar. Mesmo assim, seguindo contra os meus instintos, me aproximei da porta. As tábuas estavam pregadas havia tempo, e esse mesmo tempo as havia tornado frágeis o suficiente para que eu pudesse forçá-las com o ombro. A madeira estalou, e em questão de dois ou três empurrões, eu estava dentro da velha cabana.
O cheiro de mofo atingiu-me as narinas de maneira nauseante, revirando meu estômago e me dando vontade de cuspir tudo o que eu havia comido ali mesmo. O piso velho e manchado do que julguei ser água estava estalando e rangendo a cada passo, e apenas a luz que passava pela porta iluminava a pequena sala em que me encontrava. De súbito, ouvi a madeira estalar-se em um dos cantos escuros, e corri até as janelas com uma velocidade que eu nunca teria em condições normais, arrancando as tábuas que impediam a luz de entrar e em seguida escancarando as mesmas. A luz invadiu o ambiente com violência, iluminando a sala completamente. Uma imensa ratazana saiu correndo pela porta, com uma folha de papel entre seus protuberantes dentes.
A sala estava completamente vazia, por exceção de um banco de madeira quebrado, encostado ao canto direito das paredes, já devorado pelos cupins. Havia um alçapão no centro da sala, fechado, com uma pesada argola de metal enferrujado servindo de puxador. Com grande força, consegui erguer o alçapão, revelando um caminho de escadas estreitas, levando-me em direção a escuridão total, e um cheiro de carne putrefata e bolor subiram do local. Virei a cabeça, crente de que iria vomitar, mas mais uma vez, minha curiosidade e fascínio pelo que estava por vir me impeliram a retomar a coragem de outrora.
Retirei uma pequena lanterna de metal do bolso e a acendi, descendo pelas escadas, hesitante. O feixe de luz iluminava pouco mais que uns dois metros à minha frente, e tive que abrir caminho entre teias de aranha tão velhas que as próprias aranhas já as haviam abandonado e pedaços de cavaletes e molduras quebradas. Enquanto descia rumo ao desconhecido, a mesma sensação que eu havia sentido ao ver a casa voltava, aquele medo irracional e ancestral do desconhecido. Por fim, cheguei a um local sem saída: havia uma pequena abertura a minha frente, que dava para uma saleta com um poço fechado precariamente em seu centro, e uma estreita abertura lateral que levava para uma outra sala. Julgando que não houvesse nada na sala com o poço, esgueirei-me pela estreita passagem lateral, as minhas roupas se arrastando nas paredes ásperas.
Havia um candelabro, inexplicavelmente com velas nunca usadas, bem ao centro da sala na qual eu havia chegado. Espalhadas pelas paredes, haviam obras cobertas com densos panos grossos, como se não devessem ser nunca vistas. Tirando um isqueiro dos bolsos, acendi o candelabro, uma fonte de luz muito melhor que a minha velha lanterna. A sala iluminou-se, as paredes de tijolos amarelados e empoeirados tomadas de um leve calor. Com a nova fonte de luz, guardei a lanterna, e me ocupei de tirar os panos que encobriam as obras. Qual foi a minha surpresa ao constatar que os relatos de meu avô eram de uma sinceridade extrema, embora nada de humano fosse capaz de descrever tamanha a violência crua e o horror maldito naquelas cenas que vi.
As diversas telas mostravam criaturas animalescas, quase humanas, corcundas, feitas de pele e ossos, com sorrisos sinistros e dotados de intenções malditas, os olhos de um vazio imensurável e prazer macabro. A primeira obra que vi tratava-se de uma destas grotescas criaturas, abaixada sobre o corpo de uma mulher seminua, com a carne e o sangue da mulher escorrendo de sua boca, seus dentes amarelados e afiados rasgando um fiapo de pele que caía pelo canto da boca. A segunda obra não devia em nada à esta em matéria de horror, com diversas destas criaturas malditas, de feições quase caninas, em uma dança frenética ao redor de um pequeno grupo em um cemitério, com uma criança, apenas um inocente bebê, entre eles. Nas duas outras obras, havia um irritante paralelismo, uma delas tratando-se de um daqueles seres entrando por uma janela aberta e sorrindo de maneira macabra para um bebê em seu berço, o tomando nos braços esqueléticos e cheios de veias, já a outra... A outra tratava-se de uma família quase normal, com os pais reunidos ao redor de uma imagem religiosa, o pai da família com a bíblia em mãos e orando, e uma criança com feições iguais ás da criatura sorrindo de maneira extremamente irônica ao fundo.
Meu sangue gelava conforme eu observava as obras, todas deste teor irracional de medo e horror, de ódio à humanidade e ao bom. Por um momento, me vi tentado a fazer uso do candelabro e do isqueiro para atear fogo a tudo. E nas duas últimas obras daquele acervo diabólico, meus medos tornaram-se tão fortes que eu mal conseguia olhar para as obras sem o sentimento de que a qualquer momento uma das criaturas iria cuspir em meu rosto e me arrancar a alma com suas mandíbulas poderosas.
E, até o momento, todas as obras pareciam tratar-se apenas de um passado distante, de um tempo onde as bruxas ainda andavam pelas cidades, porém, aquele quadro me aterrorizou e tirou meu sono por diversas noites: no velho metrô de Northern Lights, seguindo por túneis que passavam abaixo dos trilhos, as criaturas se reuniam, todas com o mesmo sorriso diabólico no rosto, e uma delas, aparentemente um tipo de líder maldito, erguia o braços por entre os trilhos, querendo alcançar o metrô. E todas as criaturas, dotadas de uma vivacidade macabra, riam-se em orgulho do plano diabólico. A última obra, ao lado desta, a qual olhei com o coração já para fora da boca, tinha como plano de fundo um cemitério, e, em primeiro plano, havia apenas o rascunho infernal de uma dessas criaturas, de cócoras, observando-me. Cobri a tela com horror. Se o meu avô havia tornado-se louco, ele tinha seus motivos. Tive raiva da herança que ele havia me deixado.
E então, ouvi os mesmos estalos na madeira, mais fortes, como se algo estivesse se esgueirando pelas frestas escuras e escadas por onde eu havia passado anteriormente. Saí da sala, aterrorizado, apenas a tempo de ver o alçapão fechando-se, e gritei em horror, temendo por minha vida e sanidade. Acendi a lanterna, atemorizado, e desci até a velha sala aonde estava o poço. As tábuas que o tampavam eram recentes, e um calafrio me percorreu a espinha. Sem nenhum outro caminho a seguir, com um medo ancestral dentro de mim, abri o poço. E então, eu vi.
Ali estava, o modelo de Pickman, os olhos vazios e cruéis me encarando com uma mistura de desprezo e prazer macabro, o corpo comprido, curvado e esguio, espremido no fundo do poço. Aquilo me encarou, os dentes a mostra em um sorriso maldito, e levou os dedos longos e nojentos até a boca, fazendo-me sinal de silêncio. Gritei horrorizado, minha mente estilhaçando-se naquele momento, e corri até o alçapão, o esmurrando com força, quase inconsciente, o medo daquelas criaturas infernais me fazendo quase quebrar a madeira que protegia a saída do alçapão.
Como eu abri aquele alçapão, até hoje não sei. Quando finalmente dei por mim, eu estava em um táxi, de volta à minha casa, em Nova York, com um médico me dizendo que eu havia passado por uma crise de stress. Desde então, minhas mãos tremem sempre que estou com medo, e não posso mais passar perto de obras com temas daquele tipo impuro. E nunca mais, nunca mais em toda a minha vida, pisarei em um metrô, ou em algum outro lugar aonde possa haver um túnel onde aquelas vis criaturas possam esgueirar-se atrás de mim, e pedir por meu silêncio, enquanto criam planos macabros para tomar o que um dia já foi delas.
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