Capítulo I
Nasce o Rei das Escuridões
Tem dias em que não é possível dormir... comigo é o contrário.
Desde que eu nasci eu passo dias inteiros dormindo porque não consigo me manter acordado. Como se não bastasse essas misteriosas crises de sono repentinas eu não consigo conversar mais de cinco minutos com alguém sem sentir uma súbita vontade de estrangular a pessoa ou faze qualquer outro tipo de tortura que me venha em mente.
Mas deixando os fatos desagradáveis de lado, meu nome é Joshua Fanhills, mais conhecido como “O Para-Raio”.
Bom, explicando o porquê desse apelido ridículo. Misteriosamente quando eu chego a um local, qualquer que seja, todos começam a ficar mais calmos a medida que eu me irrito, daí me chamarem de “O Para-Raio”, ou sou o para-raio de energia negativa das pessoas ao meu redor.
Mas deixando de enrolação e voltando a história que é o que todos devem estar esperando aqui.
Bom, eu estava tendo mais um daqueles dias em que eu acho impossível me manter acordado. Meu despertador tocava a mais de meia-hora e eu sentia minhas pálpebras pesando como chumbo. Tentei levantar a minha mão em direção ao despertador, porém ele caiu cinco segundo depois de se erguer da cama. Girei na cama para ficar de barriga para cima e tentei abrir os olhos para ver o teto.
Minha visão estava tão embaçada que eu mal conseguia ver os desenhos que havia nele (alguns desenhos que eu havia feito quando tinha treze anos de idade, havia visto em um livro sobre mediunidade da minha mãe e resolvi desenhá-los no teto). Acho que cheguei a gemer algo, mas saiu tão preguiçoso que duvido que alguém soubesse dizer o que eu havia dito.
Pensei em pedir ajuda a alguém, mas fico muito lerdo nesses dias, então tive que pensar por dez minutos até conseguir lembrar que eu morava sozinho. Girei mais uma vez e cai da cama. O chão estava frio. Comecei a me arrastar lentamente em direção ao corredor, embora fosse mais fácil eu estar indo de cara a uma parede devido à dificuldade em enxergar qualquer coisa a mais de dez centímetros de distância.
De algum modo, eu cheguei até a beirada da escada que ficava no meio do corredor. Se alguém me visse naquele momento me acharia um suicida, mas acredite, era o único jeito de me manter acordado. Ainda se pergunta o que eu fiz? Me taquei escada abaixo.
Outra coisa estranha em mim, eu nunca me machuco muito feio. Mesmo caindo uma escada de quase setenta degraus rolando desgovernadamente. O fato era que sempre que eu acabava de rolar escada abaixo eu perdia toda a vontade de dormir.
Dito e feito assim que dei de cara com o chão de madeira da sala eu estava completamente acordado. Me levantei limpando o pijama e fui em direção a cozinha. Cereais, barras de chocolate e refrigerante, tudo misturado em uma tigela e polvilhado com café. Esse era meu saudável café da manhã. Bom, após eu comer tudo comecei a subir novamente e fui até meu quarto. Estava uma hora atrasado para a escola, definitivamente eu não iria dar as caras lá hoje.
Me arrumei como manda o figurino da sociedade moderna e arrumei uma pequena bolsa com algumas coisas que ia precisar durante o dia: escova de dentes, um frasco de perfume vazio e uma corrente com um pingente em forma de adaga. Após fazer essa pequena bolsa de suprimentos eu fui até a gaveta do criado mudo da minha cama e abri a primeira gaveta, lá estava. Encima de uma foto de minha família, constituída na época por mim, minha mãe, meu pai e meus dois irmãos, estava um canivete vermelho. Era um dos simples, só uma lâmina e uma pequena bússola. Eu o peguei e o coloquei no bolso da calça.
Saí do meu quarto fechando a gaveta e fui em direção a rua. Pelos meus cálculos eu teria mais cinco horas livre hoje, poderia arranjar mais dinheiro e garantir mais umas duas semanas. Bom, se pelo menos Yuri tivesse mais dois trabalhos aquele horário do dia.
Minha cidade não é das muito movimentadas, pacifica, em geral. Havia mais ou menos quatro escolas de ensino médio, cinco de fundamental, três hospitais, três delegacias, sete mercados, um supermercado, dez postos de gasolina, vinte e cinco lojas de conveniência, trinta e duas farmácias, quarenta padarias, setenta e sete bares, uma faculdade, três prédios públicos do qual só um funciona, cinqüenta bairros abrigando centenas de ruas onde moram cerca de seis mil quatrocentas e trinta e seis pessoas, além de quatro postos de corridas ilegais. As quais enchiam os cinco necrotérios. E é em um desses postos que eu trabalho.
Chegar aos postos era fácil, difícil era achar a porta. Todos sabiam aonde aconteciam às corridas, mas ninguém sabia como entrar. Claro que ninguém nunca pensou em pegar uma garrafa de cerveja vazia e tacar por cima dos arames farpados para que um porão se abrisse no meio do concreto da calçada. No caso, meu frasco de perfume servia também.
O lugar cheirava engraçado, uma mistura de óleo de motor com cigarro e, isso me deixa com dúvidas até hoje, orégano. A visão, porém, era mais séria. Cerca de vinte pessoas, homens e mulheres, trabalhando em carros, na maioria das vezes roubados, para transformarmos em carros de corrida de primeira linha.
Era ai que eu entrava. Minha função era pegar um carro de passeio roubado de algum descuidado por ai e transformá-lo em uma máquina mais potente que um de fórmula 1.
Eu passei pelos carros, enfileirados devidamente para facilitar a organização e fiquei olhando para o trabalho dos outros. Entre todos aqueles “mecânicos” havia três que chamavam minha atenção. Julius podia fazer três carros por dia, um recorde considerando o tempo que passava bebendo por ai. Katrina havia transformado um fusca em um caminhão mostro, com o qual destruiu a porta de entrada da casa do ex-namorado quando ficou sabendo que ele ia se casar com uma das amigas dela. E Beni, ninguém sabia o nome verdadeiro dele, mas todos sabiam que ele havia feito uma limusine que havia chegado semana passada ficar com mais armas embutidas do que um tanque de guerra. Há essa hora ela deveria estar à mostra no centro da pista de corrida do lado de fora da cidade.
Eu cheguei ao meu carro. Um modelo comercial para passeio em que havia começado a trabalhar noite passada antes de perceber que ia desmaiar encima do motor. O capo estava aberto e visivelmente faltavam peças lá dentro. Olhei mais atentamente para ver o que diabos eu havia feito nele semana passada e consegui, de algum jeito, lembrar que estava começando a trocar o motor e substituir algumas outras peças que não ajudariam muito na nova função daquele carro.
Peguei minhas ferramentas e comecei a trabalhar naquela joça. Não se haviam passado nem cinco minutos desde que eu havia chegado quando senti o familiar cheiro de cigarros cubanos do Paraguai atrás de mim.
-Hey, hey Joshua. É raro vê-lo de manhã no trabalho, outro daqueles dias.
Rick Hilston, o pior empresário do mundo. Era idiota, tinha péssimo gosto para cigarros e ainda por cima não sabia somar dois mais dois sem botar três zeros à direita. Mas não que eu não gostasse dele, ele havia arranjado aquele emprego e com o dinheiro dos carros eu me mantinha, e em troca eu garantia que ele não acabasse morto ou pior, como ele mesmo dizia, pobre.
A história de como eu havia conhecido o Rick era no mínimo engraçada e bizarra ao mesmo tempo. Eu estava andando por ai depois de uma série de fatos desagradáveis quando sofri uma tentativa de assalto. Digo tentativa porque Rick esfaqueou o ladrão pelas costas com o mesmo canivete que eu estava carregando no bolso. Ainda me lembro das palavras que ele me disse aquele dia.
“O que dizem ser o certo pode não estar certo. Mas se você fizer algo para ajudar o próximo todos seus pecados serão perdoados, não?”
A camisa havaiana com estampa de folhes multicoloridas, a calça boca de sino, cordão de ouro no pescoço e óculos escuros sendo usados quase meia-noite combinadas com a completa falta de sentido em suas palavras quase me fizeram rir.
Ele segurou meu braço pelo pulso e botou o canivete em minhas mãos.
“Nem sempre vai aparecer um super herói para derrotar o bandido, faça algo você mesmo.”
Mesmo não tendo entendido nada do que as falas dele tinham a ver com a situação eu senti pena do pobre coitado. Sem falar que ele ter pego o cara agonizando devido a facada no chão e arrastá-lo pela rua me deixou curioso.
-Rick, não falei que esses charutos são falsos?
-Ei ei ei pequeno, já que paguei vou pelo menos terminar a caixa.
Ele deu uma tragada no charuto e soltou a fumaça pela boca.
-Quer um?
-Eu tenho dezessete anos Rick.
-Isso não me impediu de fumar charutos na sua idade.
-Cale a boca.
-Com você quiser.
Eu me virei novamente para o carro enquanto o cheiro de charuto falso se afastava em direção aos outros carros. Bom, pelos meus cálculos eu demoraria três horas para terminar aquele carro, isso me daria mais sete horas para trabalhar em algum outro carro e faturar o dobro hoje. Claro, se tudo não tivesse desandado naquele dia com a voz de Katrina gritando por cima do barulho de peças sendo presas.
-Hey, Joshua. Faça algo útil, me ajude com isso.
Katrina não é do tipo que costuma pedir ajuda, mas o que ela me pediu para fazer ninguém nunca consegue fazer sozinho.
Lembram-se do cara que o Rick Havaí esfaqueado? Bom, pessoas como eles eram nossos pilotos. O cara que havia tentado me assaltar havia morrido a um tempo em uma batida que resultou na explosão acidental de dois carros, uma lástima.
Funciona assim: nós fazemos os carros, marcamos as corridas, levamos os carros até o local, pegamos um dos nossos pilotos em um de seus apartamentos de luxo, os escoltamos até o local da corrida, colocamos ele no carro e botamos o cinto de segurança. Se ele ganha leva parte do dinheiro e pode ir embora, se perde ele simplesmente volta par ao apartamento e espera outra corrida... se voltar.
Bom, os apartamentos de luxo ficavam embaixo da oficina. Tirando o fato de eles estarem a provavelmente três dias sem comer nada e ter um sério infiltramento de óleo no teto não havia nada de errado. As camas de madeiras pareciam confortáveis e os ratos e baratas deveriam ser boas companhias.
Pegamos alguns de nossos pilotos aleatoriamente e começamos a sua escolta. Duvido que alguém tentasse fazer algo com ele quando tem duas armas apontando para a cabeça do pobre coitado. Bom, levaríamos umas duas horas até chegar na pista. Um dos outros postos já deveria estar esperando lá para começar o encontro esportivo.
Sabe, quando se está levando um bandido que foi seqüestrado durante um dos seus crimes para um local aonde ele vai correr até a morte ou morrer durante a corrida faz você pensar na vida. No caso de Katrina, faz ela se tornar social.
-Então criança, porque ainda está trabalhando na oficina?
-Algum motivo para não estar?
-Além de ser acusado de assassinato, roubo, cárcere privado, seqüestro e, em alguns casos, estupro? Nada?
-Pera ai. Você disse estupro?
-História comprida, não vale a pena saber.
Não preciso dizer que a conversa mudou ai.
Bom, depois de séculos pensando em como se poderia somar estrupo a minha carteira criminal eu resolvi deixar para lá e me concentrar na corrida. Afinal, o carro competindo era um dos meus. Nós colocamos nosso piloto no banco e passamos o sinto nele: uma corrente prendendo ele na altura do tórax, uma passando pelo colo, colar a mão dele com cola quente no câmbio e outra no volante. Totalmente a prova de se machucar em um acidente... que não envolvesse explosões, é claro.
Depois disso eu e Katrina fomos para o local da platéia e ficamos assistindo. Sabe, até que o local era decente, a carcaça dos carros que explodiram ainda estavam lá em memória dos pilotos que haviam morrido correndo bravamente pelo esporte e os que deram duro naqueles carros. E no centro de tudo, a limusine assassina do Beni, dava para ver os três lança-foguetes no teto dali.
-Joshua, você não sente pena dos pilotos?
-Você sente?
-Não.
-É seu namorado lá?
-É.
-Sabia.
-Não vai contar ao Rick?
-Porque não contaria?
-Posso pagar?
-Dinheiro?
-Talvez.
-Serve.
As conversas com ela eram bem inteligentes.
Bom, a corrida havia começado. Dois carros saíram correndo em disparada em direção a saída da pista. Uma linha reta de quatrocentos metros. Nada difícil, mas se os dois carros passassem pela linha de chegada nós explodíamos os dois, por isso corridas poderiam demorar horas.
Para a minha sorte a corrida foi consideravelmente rápida. Aparente o ex-namorado de Katrina já havia corrido antes. Pois ele conseguiu prensar o carro do oponente e fez ele bater de cara na carcaça de um outro carro, passando pela linha de chegada. Como de praxe, detonaram os explosivos do carro perdedor. Tirando a parte da morte acidental do motorista e o som incrivelmente alto, a cena do fogo tomando conta do veículo, subindo e iluminando tudo ao redor era muito bonita, além do fato das várias pequenas explosões que saiam da primeira, era como assistir uma árvore de fogo crescendo em alta velocidade.
Mas como devo ter dito, acidentes acontecem. Aparentemente alguém acidentalmente botou uma mina terrestre a alguns metros da saída do campo de corrida. É claro que a duzentos quilômetros por horas ele não deve ter percebido isso. E então uma pequena explosão ocorreu fazendo o nosso carro levantar vôo e cair com as rodas para cima.
-Vamos lá Joshua, sofremos um acidente.
-Se você diz...
Foi uma curta caminhada até o carro capotado. Ele ainda estava parcialmente inteiro, e como prova de minha palavra, o ex-namorado de Katrina ainda estava preso ao banco do motorista, sem ter se movido um centímetro se quer. Bom, ele aparentava estar sangrando por machucados feitos pela corrente e a pele sendo arrancada da palma da mão no câmbio. Mas ele ainda estava respirando.
-Me... ajudem...
-Katrina, quem vai falar do acidente, para o Rick?
-Vocês... dois...
-Realmente, uma terrível explosão, porque não fala você, Joshua?
-Mas... eu...
-Certo.
Bom, não sei como ou porque, mas alguns segundos depois de eu e Katrina nos afastamos do carro os novos explosivos foram detonados, levando o carro todo e o motorista. Como eu disse, acidentes.
Eu e Katrina voltamos até a garagem, deveria estar saindo da escola agora, não conseguiria fazer dois trabalhos extras hoje, mas como havia terminado o carro antes do Rick vir falar comigo, pelo menos teria algum dinheiro a mais.
-Então Joshua, algum acidente?
-Duas explosões, mais uma vez sem motoristas vivos. Uma pena, realmente.
-Então, não vamos soltar ninguém. Começo a pensar se as regras são justas para os pobres coitados que vão lá correr por nós de tão boa vontade.
-Você poderia rezar um pouco por eles antes de irem correr então...
-Não sou muito religioso, acabaria atrapalhando ainda mais.
-Certo, então.
-Bom, esse é o seu segundo carro hoje, certo?
-Sim.
-Certo, não vá fazer serviços ruins só para terminar mais rápido. Ok?
-Ok.
Bom, depois daquilo o dia ocorreu normalmente. Sabe, algumas corridas, bandidos chegando feridos para serem novos pilotos e mais carros roubados, talvez alguns até comprados devido ao bom estado deles, mas não importa. No fim do dia eu havia conseguido terminar dois carros e como de praxe, ganhei cinco mil por cada um. Conseguiria me segurar dois meses com aquele dinheiro.
Sai da oficina e comecei a caminhar de volta para a minha casa, não deveria ter perdido nada de importante na escola, mas iria falar com Giulia amanhã para ter certeza. Se algo importante tivesse acontecido, ela com certeza me diria.
No caminho entrei em uma antiga casa abandonada. Costumava passar ali só de mês em mês e já havia ido lá semana passada, mas como havia conseguido um dinheiro extra não custava nada aumentar minha coleção. Fui em direção aos fundos da casa e entrei no que deveria ser o banheiro. No lugar do vaso sanitário havia um buraco com uma escada. Eu desci e dei uma olhada em volta.
A primeira vez que tinha estado ali havia me assustado um pouco, bem, quem não se assustaria quando entra em um local lotado de armas para todos os cantos? Chamavam aquele lugar de “O Santuário”, nunca descobri o porquê deste apelido, mas eu sempre tive certo interesse em armas. E como algumas pessoas colecionam selos e outras moedas, eu coleciono armas.
Eu fui até o sujeito careca com um tapa-olho que estava limpando uma HK P7M8, Trucker. Ele era o dono do lugar, e o meu fornecedor de itens para minha coleção. Ele olhou para mim com o único olho como se eu tivesse acabado de xingar a mãe dele. Ele sempre olha todos assim.
-Joshua... já não veio semana passada? Ou pretende ficar sem comer esse mês para aumentar sua coleção?
-Eu consegui algum dinheiro extra, então resolvi dar uma passada aqui para ver se você não tem nada para mim.
-Hummm, e de quanto “dinheiro a mais” estamos falando?
-Três mil e quinhentos.
-Hummm, vamos ver o que temos para você.
Trucker se levantou e foi até um baú aonde ele guardava as armas que haviam acabado de chegar e ainda precisavam ser montadas, limpas e então impossibilitar sua identificação. Não demorou muito para ele voltar com peças de um modelo de rifle antitanque.
-Este é um PzB M.SS.41, produzido na Alemanha. Normalmente custaria uns sete mil, mas como eu não trabalhei nada nele ainda faço pelos três mil e quinhentos.
Eu olhei para as peças do rifle. Ele deveria ser bem grande e pesado mesmo desmontado, teria que ser discreto quando voltar para a casa.
-Certo, eu levo ele.
-Perfeito, sabe os procedimentos, não?
-Limpar peça por peça, montar e tirar identificação. Sem testes.
-Perfeito, tome cuidado quando estiver voltando para a casa, isso chama atenção.
Ele enrolou as peças em um cobertor e as colocou dentro de uma mochila de acampamento. Eu entreguei a ele os três mil e quinhentos. Voltei para a escada e a subi, indo em direção a saída da casa, para fora do santuário.
Já era bem escuro quando estava finalmente chegando na rua da minha casa. Eu morava em um quarteirão em que a maior parte dos vizinhos morava em outra cidade e vinha passar as férias ali, então estava tudo silencioso. Estava louco para tomar um banho e começar a trabalhar naquele rifle. Pena que justo naquela noite um fato que pode ser caracterizado como o fim dos tempos aconteceu...
Era por volta das dez e meia da noite, a única luz que podia se enxergar era a dos postes. Se não estivesse acostumado com aquilo, aquele cenário me deixaria com medo.
Eu ajeitei a mochila em minhas costas, aquele rifle pesava por volta de 10Kg pelo que parecia, não era tão pesado, mas já estava ficando desconfortável. Quando voltei a prestar atenção na rua vi uma cena que com certeza poucas pessoas conseguem ver na vida.
Uma menina que aparentava ter treze anos, vestindo uma capa negra com um capuz, detalhes em roxo e carregando um arco... ou melhor, ossos negros trançados e entortados para ter o formato de um arco, corria pela rua enquanto era caçada por três criaturas de quatro metros de altura. Se fosse para descrevê-los diria que eram gorilas que ao invés de pelos possuíam escamas negras.
A menina dava saltos que eu poderia jurar ser impossível até para um ginasta em plenas condições físicas e em cada salto disparava projéteis prateados que deveriam ser flechas em direção as criaturas. Não pareciam estar surtindo efeito, pois toda vez que eram atingidos os gorilas gigantes não apresentavam nenhuma reação.
Talvez tivesse sido mais inteligente apenas virar as costas e sair correndo dali o mais rápido possível antes que algum daqueles monstros me visse, mas eu não consegui me mover. Não por medo, mas aqueles gorilas me inspiravam algo ruim, uma raiva maior do que um simples humano poderia sentir. Eu conhecia aquela sensação, eu estava absorvendo energia negativa deles, mas não era como sempre, era como se eles em si fossem a energia negativa, a raiva que eu estava sentindo. Não sei por que fiz o que fiz, mas aquela raiva insana cresceu dentro de mim até que eu me vi abrindo a mochila e tirando as peças do rifle de dentro dela.
A menina continuava pulando e disparando, por ventura um dos gorilas piscava quando era atingindo, mas na maior parte das vez nada acontecia. Eu estava começando a montar o rifle. Era perigoso fazer aquilo, não sabia como haviam feito para esconder aquilo até chegar ao Trucker, se tivessem tampado um cano com alguma coisa, atirar poderia se rum erro fatal.
Estava quase terminando de montar o rifle quando a raiva começou a ser substituída pelo ódio. Eu tentava controlar minhas mãos, mas era como se alguém dentro de mim estivesse fazendo aquilo e eu estivesse apenas assistindo com aquele ódio queimando dentro de mim. E por fim o rifle estava montado e pronto para atirar.
Eu o apoiei na guia da calçada e comecei a mirar nos gorilas, algo dentro de mim queria destruídos, queria fazer aquela maldita sensação parar, e eu deixei de lutar contra aquela vontade.
Um deles estava bem no meio da rua. Eu me concentrei nele. Por volta de Cento e cinqüenta metros de distância, um ângulo de exatos noventa e dois graus, perfeito para um disparo direto.
-Ei, feioso.
Não era a minha voz que havia saído, mas sim uma voz diferente... mais sinistra.
O fato era que a provocação havia funcionado, o gorila olhou para mim, e eu atirei. O tranco da arma foi bem forte, se estivesse de pé com certeza teria sido derrubado de costas, a bala voou em direção ao gorila e o acertou bem no meio do que deveria ser a sua testa. Como resultado foi tacado de costas no chão, com seu corpo começando a se dissolver em sombras.
Eu teria estranhado aquilo em situações normais, porém a raiva não estava me deixando pensar em nada a não ser destruir aqueles malditos gorilas escamosos. Outro gorila encima de um teto olhou em minha direção para ver o que havia abatido o companheiro. Eu decidi não dar uma chance a ele e mirei rapidamente, disparando logo em seguida.
O segundo gorila caiu do teto assim que recebeu o tiro e seu corpo desapareceu antes mesmo de tocar o solo, agradeci rapidamente, aquilo provavelmente teria causado uma cratera na rua.
A sensação de raiva diminui até o ponto de que eu já conseguia me controlar novamente. Estava quase ficando feliz por isso quando escutei um grito vindo do final da rua.
Olhei para o local e vi a menina sendo erguida por um gorila que a estava segurando. O arco dela estava caído a alguns metros de distância e pela cara que ela fazia, o gorila estava a apertando bem forte.
Eu mirei o rifle e atirei, desta vez por vontade própria. Uma cosia é ir embora antes de se envolver, outra é fugir no meio de uma luta.
O tiro pegou ando deveria ser o antebraço do monstro. Deve ter funcionado, pois ele rugiu e largou a garota, que caiu inconsciente no chão. Ele se virou para mim com um olhar enfurecido e começou a correr em minha direção. Eu disparei na cabeça dele.
O gorila cambaleou e caiu, começando a rolar em minha direção. Eu teria sido esmagado se o corpo dele não tivesse se dissolvido a alguns centímetros de mim. Se não estivesse aliviado com o fato de toda a raiva ter passado, teria ficado assustado com tudo o que havia acontecido.
Me levantei deixando o rifle no chão e fui até a menina. Ela estava caída de qualquer jeito no chão, teria pensado que estava morta, se não tivesse visto seu tórax se mexendo levemente conforme respirava.
Talvez eu seja gentil demais, ou burro demais. Mas não sentia que era certo deixar ela ali. E com este gesto de solidariedade começou o desencadeamento de fatos que destruiriam a minha vida para sempre.
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